Tuesday, May 13, 2003

A velha olhava-me por cima dos óculos de aros metálicos. Tinha uma expressão ambígua, entre o vazio cinzento do rosto e um esgar de vaga atenção ao mundo. Com uma atitude do corpo em que permanecia algo de estudado, olhava-me sem me ver. Um braço pendia ao lado da cadeira e o outro dobrado sobre o cotovelo, segurava a mão em que fumegava um cigarro. Em cima da mesa, uma chávena de café vazia e o “Diário de Notícias” aberto na página da necrologia.
Finalmente piscou os olhos, lembrou-se de qualquer coisa e quando o empregado de mesa lhe passou ao lado, fez-lhe um sinal com a mão. Alguns minutos depois ele pousou na mesa um galão fumegante num copo com uma pega redonda em metal, uma “bá-bá ao rum”, um garfo de sobremesa com um dente mais largo do que os outros e um guardanapo de papel dobrado em triângulo. Passado mais algum tempo, talvez uns cinco minutos, ela começou lentamente a beber o galão enquanto comia pequenos pedaços da “bá-bá” que cortava com o dente mais largo do garfo.
Deixou completamente de olhar para mim ou para mais alguém e dedicou-se à leitura dos anúncios dos falecimentos desse dia. Em cada notícia parava com o dedo sobre as letras e lia alto o nome do morto, sorrindo com um ar de vitória. De seguida abanava a cabeça e fazia o sinal da cruz descrevendo-o num gesto rápido, de tal forma que quase não se notava.
Demorou pelo menos uma hora nessa actividade, quando notou que eu a observava. Rapidamente fechou o jornal e ficou estática com o corpo dobrado ligeiramente para a frente. Como se dormitasse. Passou muito tempo assim. Eu já pensava que ela dormia mesmo, ali sentada.
O empregado levantou o galão e o prato vazio da “bá-bá” e limpou a mesa sem se preocupar com o facto de ela não se mexer. Passou ainda mais tempo. Anoitecia e com o fim da tarde apareciam mais pessoas que vinham tomar qualquer coisa antes de irem para casa. O movimento acalmou depois, com a hora do jantar.
A velha continuava imóvel. Notei que respirava fundo porque ondulava ligeiramente as costas.
As pessoas voltaram depois do jantar para tomar café e o ruído das vozes, das loiças e dos talheres tornou-se muito forte. Ela olhou de repente para a entrada, lá para fora e em seguida à volta, para as pessoas. Sorriu de novo com o mesmo ar de vitória, enquanto limpava as lentes dos óculos com um lenço. Levantou-se devagar, deitou algumas moedas na mão do empregado que acorrera silencioso e saiu abanado o corpo pesadamente para um lado e para o outro. Segui-a. Cá fora na esplanada havia ainda mais gente e ela passou pelas mesas, solitária, já sem ver ninguém e atravessou a rua. Parei e deixei-a ir sem mais nada. Ainda a vi a entrar num prédio, calmamente a abrir a porta, a acender a luz das escadas e a tomar o elevador.
não sou gay mas acho que não há direito: http://www2.uol.com.br/mixbrasil/campanha/index.htm

Saturday, February 01, 2003

Sempre a faltar qualquer coisa. Uma merda, um nome, um sítio. Devíamos poder esquecer ou lembrar todas as coisas que nos apetecesse. Sempre que quiséssemos, assim como os cabrões dos computadores. Eficazes, certinhos disciplinados. Sermos como eles, sem culpa, sem qualquer culpa formada no cerebrozinho, sempre prontos para actuar. Com bites, com bites e mais bites. Cheios de memória dram, ram ou vram, tanto faz. Memória precisa, plena, infinita, de todos os acontecimentos, vistas e leituras da nossa existência. Passada, claro, só o passado é que nos interessa. O futurismo é uma merda. Uma grande merda. Tão grande que nos faz perder a memória toda. Não fica nada. Viste aquele filme? Com aquele actor? Sim, esse tipo que entra sempre nos filmes daquele realizador. Como é que ele se chama? E por aí fora... Isto pode até nunca mais parar. Esquecer tudo. Esta merda. Ignorar tudo. Puta que pariu, está-se a ver...era bonito, não lembrar nada. E... gravar. Podíamos gravar as coisas. Assim já não se perdiam. E mandávamos as gravações para onde quiséssemos. Para a casa do arquivador, para ele guardar entre as outras cassetes e se alguém lá fosse podiam ouvir e rir. Rir é sempre o que lá se faz. Já não vou lá há muito tempo e assim não rio a bandeiras despregadas há muito tempo também. É uma boa interrupção rir assim. Interromper é útil. Parar a merda que nos estão a fazer na cabeça e interromper um bocado. Parar a merda um bocado. Cagar nos gajos todos um bocado. Tomar um café a olhar as mamas da empregada e a ver lá fora, que está uma puta de um belo dia e que até era bom estar numa marginal qualquer a ver o mar e a luz do sol reflectida e por aí fora... E, cagar totalmente nos gajos. Que se fodam todos, mais a memória: lembrar isto e aquilo, não esquecer, principalmente não esquecer nada. Nada, de toda uma lista enorme e infindável de coisas totalmente inúteis e risíveis... Que se fodam!