A velha olhava-me por cima dos óculos de aros metálicos. Tinha uma expressão ambígua, entre o vazio cinzento do rosto e um esgar de vaga atenção ao mundo. Com uma atitude do corpo em que permanecia algo de estudado, olhava-me sem me ver. Um braço pendia ao lado da cadeira e o outro dobrado sobre o cotovelo, segurava a mão em que fumegava um cigarro. Em cima da mesa, uma chávena de café vazia e o “Diário de Notícias” aberto na página da necrologia.
Finalmente piscou os olhos, lembrou-se de qualquer coisa e quando o empregado de mesa lhe passou ao lado, fez-lhe um sinal com a mão. Alguns minutos depois ele pousou na mesa um galão fumegante num copo com uma pega redonda em metal, uma “bá-bá ao rum”, um garfo de sobremesa com um dente mais largo do que os outros e um guardanapo de papel dobrado em triângulo. Passado mais algum tempo, talvez uns cinco minutos, ela começou lentamente a beber o galão enquanto comia pequenos pedaços da “bá-bá” que cortava com o dente mais largo do garfo.
Deixou completamente de olhar para mim ou para mais alguém e dedicou-se à leitura dos anúncios dos falecimentos desse dia. Em cada notícia parava com o dedo sobre as letras e lia alto o nome do morto, sorrindo com um ar de vitória. De seguida abanava a cabeça e fazia o sinal da cruz descrevendo-o num gesto rápido, de tal forma que quase não se notava.
Demorou pelo menos uma hora nessa actividade, quando notou que eu a observava. Rapidamente fechou o jornal e ficou estática com o corpo dobrado ligeiramente para a frente. Como se dormitasse. Passou muito tempo assim. Eu já pensava que ela dormia mesmo, ali sentada.
O empregado levantou o galão e o prato vazio da “bá-bá” e limpou a mesa sem se preocupar com o facto de ela não se mexer. Passou ainda mais tempo. Anoitecia e com o fim da tarde apareciam mais pessoas que vinham tomar qualquer coisa antes de irem para casa. O movimento acalmou depois, com a hora do jantar.
A velha continuava imóvel. Notei que respirava fundo porque ondulava ligeiramente as costas.
As pessoas voltaram depois do jantar para tomar café e o ruído das vozes, das loiças e dos talheres tornou-se muito forte. Ela olhou de repente para a entrada, lá para fora e em seguida à volta, para as pessoas. Sorriu de novo com o mesmo ar de vitória, enquanto limpava as lentes dos óculos com um lenço. Levantou-se devagar, deitou algumas moedas na mão do empregado que acorrera silencioso e saiu abanado o corpo pesadamente para um lado e para o outro. Segui-a. Cá fora na esplanada havia ainda mais gente e ela passou pelas mesas, solitária, já sem ver ninguém e atravessou a rua. Parei e deixei-a ir sem mais nada. Ainda a vi a entrar num prédio, calmamente a abrir a porta, a acender a luz das escadas e a tomar o elevador.
Finalmente piscou os olhos, lembrou-se de qualquer coisa e quando o empregado de mesa lhe passou ao lado, fez-lhe um sinal com a mão. Alguns minutos depois ele pousou na mesa um galão fumegante num copo com uma pega redonda em metal, uma “bá-bá ao rum”, um garfo de sobremesa com um dente mais largo do que os outros e um guardanapo de papel dobrado em triângulo. Passado mais algum tempo, talvez uns cinco minutos, ela começou lentamente a beber o galão enquanto comia pequenos pedaços da “bá-bá” que cortava com o dente mais largo do garfo.
Deixou completamente de olhar para mim ou para mais alguém e dedicou-se à leitura dos anúncios dos falecimentos desse dia. Em cada notícia parava com o dedo sobre as letras e lia alto o nome do morto, sorrindo com um ar de vitória. De seguida abanava a cabeça e fazia o sinal da cruz descrevendo-o num gesto rápido, de tal forma que quase não se notava.
Demorou pelo menos uma hora nessa actividade, quando notou que eu a observava. Rapidamente fechou o jornal e ficou estática com o corpo dobrado ligeiramente para a frente. Como se dormitasse. Passou muito tempo assim. Eu já pensava que ela dormia mesmo, ali sentada.
O empregado levantou o galão e o prato vazio da “bá-bá” e limpou a mesa sem se preocupar com o facto de ela não se mexer. Passou ainda mais tempo. Anoitecia e com o fim da tarde apareciam mais pessoas que vinham tomar qualquer coisa antes de irem para casa. O movimento acalmou depois, com a hora do jantar.
A velha continuava imóvel. Notei que respirava fundo porque ondulava ligeiramente as costas.
As pessoas voltaram depois do jantar para tomar café e o ruído das vozes, das loiças e dos talheres tornou-se muito forte. Ela olhou de repente para a entrada, lá para fora e em seguida à volta, para as pessoas. Sorriu de novo com o mesmo ar de vitória, enquanto limpava as lentes dos óculos com um lenço. Levantou-se devagar, deitou algumas moedas na mão do empregado que acorrera silencioso e saiu abanado o corpo pesadamente para um lado e para o outro. Segui-a. Cá fora na esplanada havia ainda mais gente e ela passou pelas mesas, solitária, já sem ver ninguém e atravessou a rua. Parei e deixei-a ir sem mais nada. Ainda a vi a entrar num prédio, calmamente a abrir a porta, a acender a luz das escadas e a tomar o elevador.
